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HOSPITAIS E POSTOS: 12 médicos são agredidos por semana no Estado
19/04/2018 - 17:00

Nem bem havia começado o seu plantão na manhã de ontem, uma pediatra foi agredida pela mãe de uma criança durante consulta na unidade de saúde de Maria Ortiz, em Vitória. Socos e puxões de cabelo deixaram a médica no chão. Mas não se trata de um caso isolado de violência. Por semana, 12 médicos sofrem agressões, físicas ou verbais, em postos de saúde e hospitais do Estado.

O levantamento é do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes), que aponta maior concentração das ocorrências na Região Metropolitana, onde três a seis casos são registrados toda semana. O quadro permanece como o de dois anos atrás, quando foi feita outra apuração.

"Infelizmente, não há contrapartida dos gestores públicos. Dizem que vão tomar providências, quando provocados pela imprensa, mas nada acontece. E o problema agora está chegando à Capital, apesar de ter uma estrutura nas unidades de saúde organizadas", afirma Otto Baptista, presidente do Simes.

PACIENTE
Em depoimento à polícia, a pediatra agredida ontem disse que a mãe, de 23 anos, levou o filho de 6 anos para atendimento em Maria Ortiz, embora não fosse paciente da unidade. A médica contou que a mulher não tinha prontuário e afirmou ser moradora da Serra.

Segundo a pediatra, a mulher queria encaminhamento para cinco exames e alguns procedimentos, mas foi informada que, para alguns deles, deveria procurar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que contemplaria as necessidades da criança.

Não satisfeita, a mãe se revoltou e começou a xingar e depois partiu para a agressão física, relatou a pediatra. Paciente e outros profissionais da unidade precisaram intervir para conter a agressora. A médica, que trabalha há 24 anos na unidade, caiu no chão e ficou com ferimentos no rosto.

Após a confusão, a mãe da criança foi detida e encaminhada à delegacia, onde prestou depoimento. Ela confessou que perdeu a cabeça e, por isso, agrediu a médica. Após assinar um termo circunstanciado por lesão corporal leve e injúria, foi liberada.

Já a pediatra foi encaminhada ao Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, onde fez exames de corpo de delito.

Uma pessoa, que não quis se identificar, afirmou que a mulher agrediu a médica com socos, xingamentos e puxões de cabelo. "Foi no primeiro atendimento, entre 7h40 e 8h. Não sei o motivo. As duas foram encaminhadas para a delegacia pela Guarda Municipal. Três viaturas foram à unidade", contou testemunha.

Diante dos casos frequentes de violência, o Sindicato dos Médicos do Espírito Santo defende que sejam tomadas medidas de segurança para reduzir as ocorrências. Botão do pânico para os profissionais e vigilância armada nas unidades de saúde (postos, pronto-atendimentos, hospitais) já foram propostos.

Para o presidente da entidade, Otto Baptista, as ações poderiam prevenir os episódios de violência que, em sua opinião, muitas vezes são gerados pela falta de estrutura das unidades.

"Temos rodado o Estado e não há interesse em melhorar a situação. Na Grande Vitória, 70% delas estão sem a mínima condição de atender a população", revela.

Além disso, Otto Baptista afirma que muitos postos estão em bairros violentos onde poucos médicos se dispõem a trabalhar justamente porque não há segurança. "Fico pensando porque os vereadores não criam um projeto de lei para segurança armada nas unidades? E o botão do pânico, uma coisa tão barata, por que ainda não foi oferecido? Será que só vão tomar uma providência quando um médico morrer?", questiona o presidente do Simes.

O Pronto-atendimento de Alto Lage, em Cariacica, é um desses exemplos de insegurança, onde já houveram casos de agressões a médicos e foi colocado patrulhamento dentro da unidade.

REFLEXOS

O advogado Bruno Toledo, professor universitário e doutorando em política social, observa que a sociedade brasileira vive em um contexto de violência generalizada e isso se reflete em casa, nas ruas, nas escolas e também nos postos de saúde.

"Precisamos entender o todo para depois olhar para essa especificidade do serviço público de saúde, que é claramente insuficiente diante da demanda da população. O sistema de saúde é violador de direitos quando nega o acesso, não oferece um atendimento adequado", argumenta.

Há também, segundo ele, uma crescente onda de intolerância e as pessoas não conseguem compreender uma demora ou um "não" colocado tecnicamente.

Toledo ressalta que nada justifica a violência praticada contra um médico ou profissional, até porque também são vítimas desse sistema de saúde que não oferece condições de trabalho, mas que é necessária a compreensão de como se chegou até esse ponto.

Nesse cenário, ele avalia que medidas de segurança não são efetivas para reduzir a violência. "Não adianta achar que, ao colocar segurança nas unidades, a situação vai se resolver. Nesse caso, estaríamos lidando com a consequência quando, na verdade, precisamos lidar com a causa. Duvido muito que, se tivéssemos um atendimento em saúde nos moldes do que a Constituição prevê, haveria tantos casos de violência."

Fonte: Jornal A Gazeta

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