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Cerca de 50 médicos são agredidos, todos os meses, em unidades de saúde
02/05/2017 - 16:49

“Fui agredida a bofetadas no rosto porque me recusei a dar um atestado médico”. O relato é de uma médica que trabalha no serviço municipal de saúde, da Serra, na Grande Vitória, e, por mais absurdo que pareça, não se trata de um fato isolado. De acordo com o Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes), pelo menos 12 médicos são agredidos por pacientes por semana, no Estado, sobretudo nos serviços de saúde de Cariacica e Serra.

Superlotação nas unidades e segurança patrimonial desarmada são as razões identificadas pelo Sindicato como principais motivadores das agressões – físicas e verbais – sofridas pelos profissionais. Mas os profissionais entrevistados acrescentam a falta de médicos e medicamentos – até os básicos -, bem como estrutura precária como causa de grande parte das agressões.

Os profissionais que conversaram com a reportagem de ESHOJE preferiram não ter seus nomes revelados, por medo de retaliação. A doutora Helena (nome fictício), que foi esbofeteada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Serra Sede, foi agredida fisicamente no rosto enquanto atendia uma criança no consultório. Mesmo assim, ela relata que foi até o final de seu plantão naquele dia.

“Essa mulher ia constantemente na unidade e pedia atestado médico. Eu recusei e dei a ela uma declaração de comparecimento, à qual todos os pacientes têm direito. Ela foi às vias de fato, e me agrediu no rosto no momento em que fazia um atendimento. Terminei meu plantão com escoriações no rosto”, contou.

Quanto às agressões verbais, ela afirma que são constantes: “Praticamente todo dia”. No ano passado, a pediatra foi diagnosticada com Síndrome do Pânico e passou a fazer acompanhamento psiquiátrico para lidar com as situações decorrentes do trabalho. Ela usa medicamentos e, inclusive, tem segurança particular para acompanhá-la no trabalho, quando se sente insegura. “Colegas minhas que também sofreram agressões até já me ligaram para que eu indicasse o segurança”.

Rendimento prejudicado
Doutora “Simone” (também nome falso), pediatra no Pronto Atendimento do Hospital Infantil de Vitória, relatou que é vítima de agressões verbais por parte de pais, situação comum devido à superlotação e falta de médicos. “Fazem isso devido demora no atendimento e precariedade na estrutura: faltam leitos para internação e crianças medicadas em cadeiras, isso quando tem. Entendo que a infraestrutura é ruim, mas nós profissionais de saúde não podemos ser responsabilizados por isso”, relata.

Xingamentos e ameaças são muitas também, ela acrescenta: “São palavrões, que ofendem a moral de um médico e, nós, como mulher também. Já sofri ameaças como ‘vou quebrar a sua cara’ ou ‘te pego na saída do plantão caso não atenda logo meu filho'”.

Os médicos destacam que, se a infraestrutura fosse melhor, as UPAs municipais e Himaba funcionassem melhor, a qualidade do trabalho aumentaria e a superlotação diminuiriam. “E, portanto, menos agressões. Trabalho preocupada com a segurança, principalmente quando está superlotado. E isso atrapalha o rendimento”, explicou.

Unidades mais violentas
Informações do Simes dão conta que as unidades com mais denúncias relacionadas a agressões contra médicos são a UPA de Carapina e US de Novo Horizonte, ambas na Serra. “Essas são as unidades com maior recorrência de agressão, invasões e delitos em 2017, embora ocorrências tenham sido registradas em outros locais, como PA de Alto Lage (Cariacica) e Maternidade de Carapina”, indica o Sindicato.

Já no ano passado, as unidades de saúde que receberam o maior número de denúncias foram o PA de Alto Lage, em Cariacica; UPA e Maternidade de Carapina, UPA de Serra-Sede e Hospital Jayme Santos Neves, na Serra; PA de São Pedro, em Vitória; Hospital Geral de Linhares e USF Alto Niterói, em Atílio Vivacqua.

O Simes informou ainda que, somente neste ano de 2017, com apenas quatro meses corridos, a unidade de saúde de Novo Horizonte já sofreu 15 invasões, com furtos e arrombamentos registrados. “Agressões a médicos também foram registradas na unidade”.

''É uma situação que tem causado trauma em muitos colegas e eles acabam se afastando destas unidades, porque têm medo de trabalhar lá. Isso gera outro problema, que é a falta de profissionais nestes locais”, comentou o presidente do Simes, Otto Baptista.

A Prefeitura da Serra informou que a segurança pública é de responsabilidade do Governo do Estado, e que tem feito seu papel instalando alarmes, câmeras de monitoramento e reforçando as grades de muros quando necessário, além de registrar Boletim de Ocorrências (BO), assim como fez na Unidade de Novo Horizonte. “Foram realizados 12 BOs e o local atualmente conta com um vigilante patrimonial no turno da noite”, informa nota enviada pela prefeitura. A Secretaria de Saúde do município informou ainda que conta com 40 Unidades de Saúde, e que “há vigilância patrimonial nas unidades com turno ininterruptos (Novo Horizonte e Jacaraípe). O serviço está sendo ampliado para outros postos. No caso das duas UPAs (Serra-sede e Carapina), há ainda guarda armada, assim como na Maternidade de Carapina”.

Médicos sem proteção em Cariacica
Em Cariacica, as 29 unidades básicas de saúde e os Pronto Atendimentos (PAs) do Trevo de Alto Lage, de Bela Vista e de Nova Rosa da Penha, não contam com segurança armada. “Mas durante o dia porteiros acompanham a entrada e saída de pessoas”, informa a prefeitura.

“As unidades de saúde encerram o expediente às 16h. Por isso, a Secretaria Municipal de Saúde não há necessidade de vigilantes armadas. Já no Pronto Atendimento (PA) de Alto Lage (PA do Trevo), que funciona 24 horas e registra o maior fluxo de atendimentos do município, há câmeras de videomonitoramento.

Já a Secretaria Municipal de Saúde de Vitória (Semus) informou que as unidades básicas de saúde do município contam com vigilância patrimonial 24 horas. “Não há registros de invasão ou situações de violência que justifiquem guarda armada. Nos dois prontos-atendimentos (Praia do Suá e São Pedro), que lidam com casos de urgência e emergência, a vigilância é armada 24 horas”.

Em Vila Velha, apenas o PA da Glória possui vigilância 24 horas, e mesmo assim não é armada. “No Hospital Municipal de Cobilândia a vigilância é apenas no período noturno não armada, e nos períodos da manhã e tarde é porteiro. Na atenção primária de saúde temos 19 unidades e não temos vigilantes nas mesmas. Havendo transtorno recorremos à Guarda Municipal ou, se for o caso, a própria Polícia Militar”, informou a PMVV por nota.

Fonte: ES Hoje